ÍNDICE
Cosmovisão cristã refere-se ao conjunto de pressupostos fundamentais por meio dos quais interpretamos a realidade como um todo. O cristão interpreta a realidade popularmente chamada às vezes de física ou espiritual, na forma bíblica, mas o assunto não pára aí, vai além. Toda compreensão do conhecimento, da ciência, da moral, da cultura e da vida social parte de uma visão de mundo previamente assumida, ainda que nem sempre reconhecida ou assumida por muitos.
A cosmovisão cristã não é entendida como ideologia ou preferência subjetiva, mas como fundamento intelectual que orienta a maneira de conhecer, julgar e agir no mundo. Ao assumir conscientemente uma cosmovisão cristã reformada, ou seja, bíblica, o indivíduo afirma que a realidade é ordenada, inteligível e normativamente estruturada, que não existe neutralidade no campo do saber, e que fé, razão e vida pública constituem uma unidade coerente sob a soberania de Deus.
Toda educação, toda produção intelectual e toda ordem cultural pressupõem uma determinada compreensão da realidade, cosmovisão. Não existem conhecimento, ciência ou formação humana neutros: toda investigação parte de pressupostos fundamentais acerca da verdade, do sentido da existência e da natureza do mundo. Reconhecer tais pressupostos não empobrece o pensamento; ao contrário, confere-lhe coerência, responsabilidade e honestidade intelectual.
O Reforma com Ciência assume conscientemente uma cosmovisão cristã reformada, historicamente enraizada na tradição da Reforma Protestante, como estrutura interpretativa abrangente da realidade. Tal cosmovisão não se restringe ao âmbito religioso ou privado, mas compreende o cristianismo como uma visão integral da vida, capaz de oferecer fundamentos objetivos para o conhecimento, a moralidade, a cultura e a vida pública. Fé e razão, longe de se oporem, encontram-se organicamente integradas no reconhecimento de uma ordem criada inteligível, significativa e normativamente estruturada.
Ao posicionar-se de modo explícito contra o relativismo epistemológico e moral, bem como contra a pretensão de neutralidade no campo do saber, esta plataforma afirma que a verdade é real, cognoscível e normativa para a vida individual e social. Nesse horizonte, a educação é compreendida não apenas como transmissão de técnicas ou informações, mas como formação integral do ser humano — intelectual, moral e vocacional — orientada pela responsabilidade diante de Deus, da sociedade e das gerações futuras.
Este Documento de Cosmovisão estabelece, portanto, o fundamento conceitual que orienta todas as iniciativas do Reforma com Ciência. Ele expressa o compromisso institucional com a integração entre fé, razão e vida pública, com a preservação da herança cultural cristã e com a contribuição consciente para a edificação de uma sociedade ordenada, responsável e intelectualmente sólida, para a glória de Deus e o bem comum.
O que é a verdade? Existe verdade objetiva? Vamos pensar, com Van Til. A realidade não é produto do acaso nem construção arbitrária da consciência humana. Ela possui ordem, estrutura e significado objetivos, independentes das percepções individuais ou dos consensos culturais momentâneos. A possibilidade mesma do conhecimento pressupõe que a realidade seja inteligível e que a verdade não dependa da vontade humana para existir. Negar tal objetividade conduz inevitavelmente à dissolução do sentido, da racionalidade e da responsabilidade moral. A realidade é objetiva, ordenada, inteligível e exerce autoridade. A realidade não é criada, não é relativa.
O Reforma com Ciência afirma que a verdade é real, cognoscível e normativa. Tal afirmação implica o reconhecimento de que o conhecimento humano não cria a verdade, mas a apreende de modo finito e situado. A verdade não é relativa às circunstâncias históricas nem às preferências subjetivas, ainda que o acesso humano a ela seja limitado e requeira humildade intelectual. Nesse sentido, rejeitamos tanto o relativismo epistemológico quanto o ceticismo radical, por entender que ambos minam as bases da ciência, da moral e da vida social ordenada.
Ao mesmo tempo, esta plataforma reconhece que a verdade exerce autoridade sobre o pensamento e a ação humana. Conhecer não é um ato moralmente neutro, pois implica responsabilidade diante da realidade tal como ela é. A educação que ignora a autoridade da verdade substitui a busca pelo que é real pela imposição de narrativas contingentes, abrindo espaço para a manipulação ideológica e para a instabilidade cultural. Em contraste, a formação orientada pela verdade objetiva promove clareza intelectual, discernimento moral e compromisso com a ordem e o bem comum.
Porque não falarmos de crítica à autonomia da razão (muito bem exposto abaixo na Seção II)? Ao criticar a autonomia da razão, não se nega a legitimidade do pensamento racional nem da investigação científica, mas a pretensão de que a razão humana seja autossuficiente e exerça autoridade última sobre a verdade, a realidade e a moralidade. Tal concepção, característica da modernidade, pressupõe que a razão possa fundamentar a si mesma, ignorando limites e referências transcendentes, e influencia de modo decisivo a compreensão contemporânea do conhecimento e da educação.
Com Van Til observamos pressupostos, crítica à razão autônoma, observando a sã doutrina bíblica. Com Bavinck, observamos sem temor relação legítima entre fé e razão. Fé não é irracional, e razão não é autônoma. O cristão não deve estar preparado para falar e pensar em pressupostos, fé e razão.
Como conhecemos? Conhecimento tem implicações morais. Todo ato de conhecer parte de pressupostos fundamentais que orientam a interpretação da realidade. Não existe conhecimento puramente neutro ou autônomo, pois a própria atividade racional opera dentro de um horizonte prévio de crenças acerca do que é real, verdadeiro e significativo. Reconhecer a presença desses pressupostos não compromete a racionalidade; antes, torna o pensamento intelectualmente honesto e filosoficamente consistente.
O Reforma com Ciência afirma que fé e razão não constituem esferas independentes ou concorrentes, mas dimensões inseparáveis da experiência humana. A fé, entendida aqui não como mera crença subjetiva, mas como compromisso último do coração e da mente, orienta o uso da razão e confere coerência ao conhecimento. A razão, por sua vez, é um instrumento legítimo e necessário para a investigação da realidade, embora limitada e incapaz de fornecer, por si mesma, os fundamentos últimos do sentido, da verdade e da moralidade. Conhecimento tem implicações morais.
Rejeitamos, portanto, a noção de uma razão autônoma que se pretenda capaz de julgar a realidade a partir de critérios autoestabelecidos e independentes de qualquer compromisso prévio. Tal pretensão conduz à fragmentação do saber e à instabilidade epistemológica. Em contraste, a integração consciente entre fé e razão, fundamentada em pressupostos reconhecidos e avaliáveis, permite uma abordagem do conhecimento que seja ao mesmo tempo crítica, coerente e responsável, capaz de sustentar a prática científica, o discernimento moral e o engajamento cultural de modo íntegro e ordenado. Conhecimento tem implicações morais.
Em suma, percebe-se então que fé não é irracional e a razão não é autônoma. Há uma relação legítima entre fé e razão. Afinal, fé não é sentimento é compromisso último. Razão é válida, necessária mas limitada. Este projeto, Reforma Com Ciência não é fideísmo, nem tão pouco racionalismo travestido. Conhecimento tem implicações morais.
Como forma pessoas? O conhecimento não se apresenta de forma fragmentada na realidade, ainda que historicamente tenha sido compartimentalizado em disciplinas distintas. A separação artificial entre áreas do saber, quando absolutizada, compromete a compreensão da totalidade e obscurece as relações orgânicas que conferem sentido ao conhecimento humano. Uma educação que trata os campos do saber como compartimentos isolados tende a formar especialistas tecnicamente competentes, porém incapazes de integrar verdade, significado e responsabilidade.
O Reforma com Ciência afirma a unidade orgânica do saber, reconhecendo que todas as áreas do conhecimento participam de uma mesma ordem da realidade e, por isso, devem ser compreendidas em relação umas às outras. Teologia, filosofia, ciência, ética, cultura e vida social não constituem domínios concorrentes, mas dimensões interdependentes de uma compreensão coerente do mundo. Tal unidade não elimina a diversidade metodológica das disciplinas, mas a orienta por um horizonte comum de sentido e verdade.
Nesse contexto, a educação é compreendida como formação integral do ser humano. Não se limita à aquisição de informações ou habilidades técnicas, mas envolve o desenvolvimento intelectual, o caráter moral e a consciência vocacional. Formar integralmente significa capacitar indivíduos a pensar com clareza, agir com responsabilidade e exercer suas vocações de modo ordenado e socialmente construtivo. Ao recuperar a unidade do saber, o Reforma com Ciência busca contribuir para a superação da fragmentação cultural contemporânea e para a formação de pessoas aptas a integrar conhecimento, virtude e serviço à sociedade.
Percebemos então há uma unidade orgânica do saber, a formação é integral. Educação não é só técnica, e nem tão pouco só informação. Formação envolve mente, caráter e responsabilidade social. Embora as disciplinas são distintas, não são isoladas, por isso, rejeitar-se-á a fragmentação do conhecimento que distrai o verdadeiro cristão do caminho completo e holístico da realidade. Cristão pensa sim em cultura, vida pública, política e responsabilidade social. Porque ser cristão é bem mais do que ser um seguidor de uma religião, pois o cristão está com a verdade completa que é O Evangelho, que é Jesus Cristo autor e consumador de nossa fé.
A cosmovisão aqui afirmada reconhece a razão humana como dom legítimo e indispensável, criado por Deus e ordenado para o conhecimento da realidade. Contudo, sustenta que a razão não opera de modo autônomo nem neutro, mas sempre inserida em um horizonte de pressupostos fundamentais que orientam sua interpretação dos fatos, da experiência e do mundo.
A fé, nesse sentido, não se opõe à razão nem a substitui, mas constitui o ponto de partida último a partir do qual a razão exerce sua atividade de forma coerente e responsável. Toda investigação racional pressupõe compromissos prévios quanto à natureza da realidade, à possibilidade do conhecimento e à existência da verdade objetiva. A cosmovisão cristã reformada afirma que esses fundamentos encontram sua unidade e consistência na revelação de Deus, sem a qual o conhecimento se fragmenta e perde sua orientação final.
Rejeita-se, portanto, a dicotomia moderna que separa fé e conhecimento, relegando a fé ao âmbito privado ou subjetivo e reservando à razão autônoma a autoridade sobre o saber público. Tal separação produz uma visão empobrecida da racionalidade e compromete a integridade do conhecimento. Em contraste, afirma-se que fé e razão operam de modo integrado, sendo a fé o fundamento que confere sentido, direção e coerência à atividade racional.
Assim, o conhecimento é compreendido como uma tarefa humana integral, que envolve responsabilidade intelectual, moral e espiritual. A razão cumpre adequadamente sua vocação quando reconhece seus limites, submete-se à verdade objetiva e opera à luz de pressupostos que não negam, mas reconhecem, a ordem criada e a autoridade última da realidade tal como foi estabelecida por Deus.
Esta seção, para quem aprecia o bom siso teológico, alinhou o argumento "van-tiliano" no fundamento, "bavinckiano" na forma, "kuyperiano" no alcance, sobre fé, razão e conhecimento. O objetivo é entender razão como um dom legítimo, que a fé não substitui a razão, e sim, fundamenta a razão, que a razão não é juiz supremo, mesmo quando cristã. Portanto, Reforma com Ciência não aceita a autonomia da razão como pressuposto educacional.
A educação e a ciência não operam em um vácuo axiológico ou epistemológico. Todo processo educativo, toda investigação científica e toda produção de conhecimento pressupõem uma determinada compreensão da realidade, da verdade e do ser humano. Por essa razão, rejeitamos a noção moderna de neutralidade educacional e científica, segundo a qual o conhecimento poderia ser transmitido ou produzido de forma descompromissada de pressupostos últimos.
Reconhecemos que a ciência, enquanto atividade humana legítima, investiga a ordem criada e se beneficia da racionalidade, da regularidade e da inteligibilidade do mundo. Contudo, afirmamos que tais características da realidade não são autossustentadas nem fruto do acaso, mas derivam da ordem estabelecida por Deus. A ciência é possível precisamente porque o mundo é coerente, governado por leis estáveis e acessível à razão humana, razão esta criada, limitada e dependente.
Assim, a alegada neutralidade científica frequentemente mascara a adoção implícita de pressupostos naturalistas, materialistas ou relativistas, apresentados como universais e normativos. Tais pressupostos não decorrem da própria ciência, mas de uma filosofia prévia que orienta sua interpretação. Ao negar a neutralidade, não negamos a objetividade do conhecimento, mas afirmamos que a verdadeira objetividade exige o reconhecimento honesto dos fundamentos que tornam o conhecimento possível.
No campo educacional, isso implica reconhecer que toda formação comunica valores, visões de mundo e concepções morais, ainda que de forma implícita. A educação que se pretende neutra, na prática, forma indivíduos segundo pressupostos que frequentemente entram em tensão com a fé cristã, a ordem moral objetiva e a responsabilidade social. Por isso, defendemos uma educação conscientemente orientada por uma cosmovisão cristã reformada, que integre fé, razão e vida prática de maneira coerente e responsável.
A proposta educacional aqui assumida não busca isolar-se do diálogo acadêmico nem rejeitar os avanços do conhecimento humano, mas situá-los dentro de um horizonte mais amplo, no qual a verdade é una, a realidade é ordenada e o conhecimento encontra sua coerência última em Deus. Dessa forma, ciência e educação deixam de ser instrumentos de fragmentação cultural e tornam-se meios legítimos de preservação, cultivo e transmissão da ordem intelectual e moral da sociedade.
A cosmovisão aqui afirmada compreende a cultura como expressão inevitável das convicções últimas que orientam indivíduos e sociedades. Toda cultura reflete uma determinada visão de realidade, de ordem moral e de finalidade humana. Nesse sentido, a vida social, as instituições, as práticas culturais e as estruturas públicas não são neutras, mas moldadas por pressupostos religiosos, filosóficos e morais, ainda que frequentemente não reconhecidos como tais.
A tradição cristã reformada afirma que a soberania de Deus se estende sobre todas as esferas da vida, incluindo cultura, ciência, trabalho, educação, política e economia. Nenhuma dessas esferas possui autonomia absoluta ou independência última. Cada uma possui sua vocação própria, seus limites e sua responsabilidade diante da ordem criada. A negação dessa realidade conduz tanto à absolutização do poder quanto à dissolução da responsabilidade moral.
Reconhece-se a distinção legítima entre as esferas da vida social, bem como a necessidade de limites institucionais claros, sem confusão entre Igreja, Estado e demais instâncias da vida pública. Ao mesmo tempo, rejeita-se a exclusão da fé e da moral objetiva do espaço público, como se estas fossem meras preferências privadas. A vida social saudável depende de fundamentos morais compartilhados, sem os quais a liberdade se torna instável e a justiça se fragiliza.
A responsabilidade pública, nessa perspectiva, não se reduz à militância ideológica nem à imposição coercitiva de crenças, mas envolve o cultivo da ordem, da verdade, da justiça e do bem comum por meio de instituições responsáveis, educação sólida, trabalho diligente e participação consciente na vida social. A atuação cristã no espaço público deve ser caracterizada por clareza de princípios, sobriedade intelectual e compromisso com a preservação e o florescimento da vida social.
Assim, esta cosmovisão se insere conscientemente no horizonte civilizacional da Reforma Protestante, que compreendeu a fé cristã não apenas como experiência individual, mas como força formadora de cultura, instituições e responsabilidade social. Ao afirmar a unidade da verdade, a ordem da criação e a soberania de Deus sobre toda a realidade, este projeto assume o compromisso de contribuir, de maneira responsável e duradoura, para a edificação de uma sociedade intelectualmente honesta, moralmente ordenada e culturalmente sólida.
Ao afirmar que toda cultura e toda ordem social são moldadas por convicções últimas acerca da realidade, da verdade e da finalidade humana, esta cosmovisão reconhece a responsabilidade pública como inseparável da ordem criada e da soberania de Deus. Rejeita-se, assim, tanto a absolutização de qualquer esfera da vida quanto a exclusão da fé e da moral objetiva do espaço público, compreendendo-se que a vida social depende de fundamentos normativos estáveis para a preservação da liberdade e da justiça. Nesse horizonte, a tradição cristã reformada é assumida em sua dimensão civilizacional, segundo a qual a fé cristã não se restringe à esfera privada, mas informa de maneira responsável a vida cultural, institucional e social, orientando a ação humana para o bem comum, com clareza de princípios, respeito às distinções legítimas entre as esferas e compromisso duradouro com a integridade intelectual e moral da sociedade.
A cosmovisão aqui apresentada estabelece os fundamentos teóricos, epistemológicos e morais que orientam este projeto educacional e cultural. Contudo, toda cosmovisão consequente tende a se expressar para além do plano conceitual, projetando-se inevitavelmente sobre a compreensão da cultura, da ordem social e das responsabilidades públicas. Ideias últimas não permanecem neutras em seus efeitos históricos.
Nesse sentido, o horizonte civilizacional da tradição cristã reformada sempre compreendeu que a fé, quando assumida de forma íntegra e responsável, informa não apenas a consciência individual, mas também as práticas culturais, as instituições sociais e os critérios de preservação da ordem moral. A separação absoluta entre convicções fundamentais e vida pública não constitui neutralidade, mas renúncia à responsabilidade histórica.
O Manifesto Cultural Conservador Cristão que se segue não pretende substituir o presente Documento de Cosmovisão, nem repetir seus fundamentos, mas expressá-los de forma aplicada e pública, diante dos desafios culturais contemporâneos. Trata-se de uma afirmação consciente de princípios, valores e compromissos derivados desta cosmovisão, orientados para a preservação da ordem social, da liberdade responsável, da dignidade do trabalho, da centralidade da família e do bem comum.
Assim, o Manifesto deve ser lido como desdobramento legítimo de uma compreensão integrada da verdade, da realidade e da vida social, e não como posicionamento circunstancial ou retórico, mas como compromisso cultural enraizado em fundamentos duradouros.